Na sabedoria camponesa o húmus é (o lar dos micróbios que cria) a “gordura da terra”, sangue e alento da fertilidade infinita no solo e de seu nome surgem duas virtudes: HUMILDADE e a consciência política

Sebastiao Pinheiro. Físicos e religiosos convergem: O húmus é a essência da vida. Na sabedoria camponesa o húmus é (o lar dos micróbios que cria) a “gordura da terra”, sangue e alento da fertilidade infinita no solo e de seu nome surgem duas virtudes: HUMILDADE e a consciência política, HUMANISMO.
Em um mundo onde as sociedades hegemônicas erosionam a sabedoria através de uma imposição de conhecimento e tecnologia como mercadoria é necessário estar sempre desperto e preparado para o confronto entre a sabedoria, ESCUDO e o conhecimento, ESPADA, contudo toda e qualquer situação deve ser fraterna, pelo húmus.
Angústia e ingratidão são sentimentos de reação que obrigam profunda reflexão à serem superados e trazer luz e fraternidade.
Senti-me abandonado no Assentamento Serra Verde (MST) em Senhor do Bonfim, Bahia (Latitude 10º27´41S e Long. 40º11´22W) ao final do curso de Agricultura com Vida e Cromatografia de Pfeiffer no Centro de Formação Popular Jailton Oliveira Bispo, após o retorno dos dezesseis alunos para suas terras. Ali tive de esperar 14 horas sozinho o ônibus que após uma viagem de dez horas durante toda a noite me levaria a Picos, PI (Lat.07º04´37”S e Lon.41º28´01W) para outro curso com camponeses e militantes. Será que a escassez de sabedoria não permitiu perceber que tenho 67 anos de idade?
Para amenizar a angústia sobre o comportamento e inépcia organizacional do conhecimento, aproveitei a solidão pensando no húmus e suas qualidades físicas e religiosas já que o curso ficou abaixo das expectativas .
Saí de casa em Porto Alegre (Lat. 30º01´59”S e Long. 51º13´58”W) às 5 da madrugada do Domingo de Páscoa e deixei minha esposa só, pelo seu valor e compromisso camponês. No entanto o plano de vôo me fez esperar seis horas em Salvador para uma conexão a Petrolina com outra empresa, o que me obrigou a comer no aeroporto, onde a comida a peso sem carne, pescado ou bebida custou 48 reais, um roubo.
Fiz o trecho final de 120 quilômetros de carro chegando às 22 horas no Centro de Formação. Precavido levei meu mosquiteiro, mas deixei a lanterna em casa devido aos constantes apagões.
Na manhã de segunda feira, tive de esperar a chegada dos participantes até o meio dia e pior, muito do material solicitado com antecedência não foi conseguido e estava inviável pelo feriado nacional da Inconfidência. Se eu não tivesse levado dois piloezinhos meus não haveria a principal atividade do curso…
O arrependimento surgia em confronto entre escudo e espada, pois sabendo das duas datas iria com minha esposa para o litoral (no último feriado longo antes do inverno gaúcho). Muitos podem classificar a situação como “surreal” , contudo a sabedoria do húmus diz: “Isto continuará “trivial” enquanto a mentalidade de elite imperar sobre a cidadania republicana”. O dramático é que técnicos, líderes e massa gritam contra as desigualdades, mas mantém o rito elitista, que faz a inépcia mais notável já que seus anseios ficam submersos na inexperiência.
Recebi o ticket aéreo (por e-mail) com suas conexões sem qualquer palavra ou registro de contacto para o caso de emergência ou para deixar com minha esposa. Viajei no escuro. Houve uma consulta se viajaria de ônibus para o outro curso. Assenti desde que carro leito. Fiquei sem resposta.
Pessoas são seres humanos oriundas do húmus e devem ser humildes e não tratadas como metas de projetos mercantis e outros.
Esta avaliação é dura, sem devaneios ou desvarios, mas fraterna, pois vivemos em um país onde o poder financeiro substituiu a ineficiência da Extensão Rural com os pequenos pelo seu viés mercantil, pelas ONGs nutridas pelos alienantes recursos benemerentes internacionais, e hoje, amamentadas pelo Governo, fazendo de conta que realizam outra extensão, educação do campo e organização social para uma pequena plêiade de acólitos.
Por outro lado, muitos desconhecem que os movimentos sociais independentes não dispõem de tais recursos e seu pessoal não tem a experiência, nem a humildade de trabalhar coletivamente para suprir e sanar deficiências organizacionais. Os 16 camponeses deveriam ser oitenta e se não há cobrança isso continuará se repetindo e os custos cada vez mais caro pela falta de compromisso com a sabedoria na gestão de recursos, diferente das ONGs para governamentais.
Se alguém não entender ficar com raiva ou molesto com a avaliação recomendo voltar ao húmus e suas virtudes. Os agricultores ficaram satisfeitos, felizes e contentes, mas os organizadores foram responsáveis pelo pífio resultado e devem aprender ver sua inexperiência antagônica à visão messiânica, comum nos jovens estrangeiros que vem nos tirar do atraso, pobreza e miséria, mas são inconsciente do que fazem para seus governos, sociedade e grandes corporações…
Não há lugar para arrogância, prepotência ou ignorância quando todos pegam juntos ombro a ombro, como no curso que aconteceu em Francisco Santos no Piauí, onde apesar de todo o medo propalado à distância tudo ocorreu como em uma grande e harmoniosa família camponesa.
Esta reflexão está longe de ser uma reclamação, ao contrário quanto mais dificuldade mais e melhor devo atender o camponês, logo para mim as dificuldades são um lenitivo e continuaremos mais aferrados e céleres na restauração da sabedoria camponesa no lugar do conhecimento (técnico) sem desvarios ou devaneios.
É memória, o poder armou o bando do “Capitão” Lampião contra os comandados do Cavaleiro da Esperança. Mas a sabedoria camponesa foi maior, pois tinha as feridas de Canudos ainda sangrando. Somos a esperança que estávamos esperando e não há lugar para desvarios ou devaneios.

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